Capítulo 1 de 32
Das Sagradas Escrituras
- 1.1
A Sagrada Escritura é a única regra suficiente, certa e infalível de todo o conhecimento, fé e obediência salvíficos. Embora a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestem de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus que deixam os homens inescusáveis, elas não são suficientes para proporcionar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade que é necessário para a salvação. Por isso, aprouve ao Senhor, em diversos tempos e de diversas maneiras, revelar-se e declarar a sua vontade à sua Igreja; e, depois, para melhor preservação e propagação da verdade e para o firme estabelecimento e consolo da Igreja contra a corrupção da carne e a malícia de Satanás e do mundo, aprouve-lhe registrar por escrito toda essa vontade revelada. Isso torna as Sagradas Escrituras totalmente necessárias, visto que cessaram aqueles modos anteriores pelos quais Deus revelava a sua vontade ao seu povo.
- 1.2
Debaixo do nome de Sagrada Escritura, ou Palavra de Deus escrita, estão agora contidos todos os livros do Antigo e do Novo Testamento, que são: os trinta e nove do Antigo Testamento e os vinte e sete do Novo Testamento, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de vida.
- 1.3
Os livros comumente chamados apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon das Escrituras e, portanto, não têm autoridade na Igreja de Deus, nem devem ser de outro modo aprovados ou usados senão como outros escritos humanos.
- 1.4
A autoridade da Sagrada Escritura, pela qual ela deve ser crida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas inteiramente de Deus, seu autor, que é a própria verdade. Por isso ela deve ser recebida, porque é a Palavra de Deus.
- 1.5
Podemos ser movidos e induzidos pelo testemunho da Igreja a uma alta e reverente estima das Sagradas Escrituras; e a sublimidade do conteúdo, a eficácia da doutrina, a majestade do estilo, o consenso de todas as partes, o seu escopo total (que é dar toda a glória a Deus), a plena revelação que faz do único caminho da salvação do homem, e muitas outras incomparáveis excelências e a sua inteira perfeição, são argumentos pelos quais ela dá abundante evidência de ser a Palavra de Deus. No entanto, a nossa plena persuasão e certeza de sua verdade infalível e autoridade divina provêm da obra interior do Espírito Santo, que dá testemunho com a Palavra e pela Palavra em nossos corações.
- 1.6
Todo o conselho de Deus, concernente a tudo o que é necessário para a sua própria glória, e para a salvação, fé e vida do homem, está expressamente declarado nas Escrituras ou pode ser delas deduzido por boa e necessária consequência. A elas nada se deve acrescentar, seja por novas revelações do Espírito, seja por tradições dos homens. Reconhecemos, contudo, que a iluminação interior do Espírito de Deus é necessária para o entendimento salvífico das coisas reveladas na Palavra.
- 1.7
Nem todas as coisas na Escritura são igualmente claras em si mesmas, nem igualmente evidentes a todos; contudo, aquelas coisas que é necessário conhecer, crer e observar para a salvação são tão claramente propostas e abertas em algum lugar da Escritura, que não só os instruídos, mas também os não instruídos, fazendo uso devido dos meios ordinários, podem alcançar suficiente entendimento delas.
- 1.8
O Antigo Testamento em hebraico e o Novo Testamento em grego, sendo imediatamente inspirados por Deus e, pelo seu singular cuidado e providência, mantidos puros em todos os tempos, são, portanto, autênticos. Mas, porque essas línguas originais não são conhecidas por todo o povo de Deus, a Escritura deve ser traduzida na língua vulgar de cada nação, para que, habitando a Palavra de Deus abundantemente em todos, possam adorá-lo de modo aceitável e ter esperança pela paciência e consolação das Escrituras.
- 1.9
A regra infalível para a interpretação da Escritura é a própria Escritura; portanto, quando há dúvida sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer passagem, ele deve ser investigado e conhecido por outros lugares que falem mais claramente.
- 1.10
O juiz supremo, pelo qual todas as controvérsias de religião devem ser determinadas, e todos os decretos de concílios, opiniões de escritores antigos e doutrinas dos homens devem ser examinados, não pode ser outro senão a Sagrada Escritura entregue pelo Espírito; em cuja sentença devemos repousar.
